Era a noite mais escura que alguma vez presenciei. Caminhava
pelo beco da rua escura, escurecido pelo facto de não haver lua. O cheiro a
corpos em decomposição saía pelas entranhas do esgoto. Pelas tampas do
saneamento saía ar quente, deixando uma pequena névoa, que dificultava a minha
percepção á rua. Apesar das adversidades não havia outro sitio que não quisesse
estar, se não aqui. No canto sul da cidade Imunda. Imunda de pessoas nojentas
como eu. Cheias de pensamentos impróprios de uma civilização perfeita. Dou mais
uns passos devagar sem tirar a mão das costas aonde está a minha arma, a desert
egle prateada. Eu sei que ele está aqui, só não sei se ele sabe que eu estou
aqui. Apesar de não ver a mais de uns sessenta metros porque as luzes da cidade
ofuscam-me os olhos, ele pode estar ao virar da esquina.
- O que queres de mim?
Afinal ele sabia que eu estava a persegui-lo
- Aparece. Eu só quero falar…
- A ultima vez que nos encontramos. Quase mataste-me. Eu
nunca vou aparecer!
É verdade. Quase o consegui matar. Uns centímetros mais ao
lado e tinha lhe rachado o crânio. Assim só consegui uma orelha ao pescoço e já
começava a cheirar mal. Dou mais uns passos á frente. Mas não o encontro.
- Seu cobarde! Aparece!
- Tudo bem só com uma condição!
- Eu não negocie-o contigo…
- Se tu atirares o machado para longe eu apareço!
- Sabes que eu nunca faria uma coisa dessas.
O machado era o meu legado. Ele tinha passado de pai para
filho ao longo de varias gerações. Foi um presente que o meu antepassado
recebera por ter casado com a filha do ferreiro. Era demasiado valioso para o
abandonar.
- Ok.
- O quê?
- Fica combinado!
Tiro a corda que tenho á cintura e atiro o machado para
longe. De repente aparece o Jeremias. Pequeno homem sem orelha com uma
caçadeira de canos serrados na mão que a dispara instantaneamente. Fujo para de
trás de um caixote do lixo e por sorte não sou atingido, apenas uns furos no
meu casaco preto de cabedal. Um dos dois não pode sair vivo desta vez. Se
morrermos os dois melhor. Assim acaba também o meu sofrimento.
- AH ah, afinal quem se esconde agora és tu? Não é Marco?
Conseguia sentir a loucura deste homem só pela voz. Louco e
maquiavélico. Saco a minha desert egle.
-Desta vez não vais sair vivo, Jeremias!
- Sabes quais foram as últimas palavras dela? Que eu era bem
melhor na cama do que tu!
- Tu não falas assim da Luísa.
As veias do meu pescoço dilatam e os olhos incham. Sinto os
nervos á flor da pele. É agora ou nunca. É este o momento da vingança. Cerro os
dentes e avanço inconscientemente com a arma na minha frente. Só vejo os
clarões da pólvora incendiada e ouso os estrondos que me deixam surdo. Mesmo
com a última munição consigo um tiro certeiro na cabeça de Jeremias. Mas sinto
me estonteado. Cai-o de joelhos quando reparo que ele também me acertou. Meto a
mão ao peito e o sangue escorre pela minha mão. Caio com a face no chão, mesmo
por cima da minha poça de sangue. Uns segundos antes de fechar os olhos, vejo
ao fundo do beco uma espécie de junção de pessoa mais macaco. Ele pega no machado
desaparece trepando os edifícios da cidade.
muito fixe mesmo
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