26 de outubro de 2011

Histórias da cidade imunda - a vingança


Era a noite mais escura que alguma vez presenciei. Caminhava pelo beco da rua escura, escurecido pelo facto de não haver lua. O cheiro a corpos em decomposição saía pelas entranhas do esgoto. Pelas tampas do saneamento saía ar quente, deixando uma pequena névoa, que dificultava a minha percepção á rua. Apesar das adversidades não havia outro sitio que não quisesse estar, se não aqui. No canto sul da cidade Imunda. Imunda de pessoas nojentas como eu. Cheias de pensamentos impróprios de uma civilização perfeita. Dou mais uns passos devagar sem tirar a mão das costas aonde está a minha arma, a desert egle prateada. Eu sei que ele está aqui, só não sei se ele sabe que eu estou aqui. Apesar de não ver a mais de uns sessenta metros porque as luzes da cidade ofuscam-me os olhos, ele pode estar ao virar da esquina.
- O que queres de mim?
Afinal ele sabia que eu estava a persegui-lo
- Aparece. Eu só quero falar…
- A ultima vez que nos encontramos. Quase mataste-me. Eu nunca vou aparecer!
É verdade. Quase o consegui matar. Uns centímetros mais ao lado e tinha lhe rachado o crânio. Assim só consegui uma orelha ao pescoço e já começava a cheirar mal. Dou mais uns passos á frente. Mas não o encontro.
- Seu cobarde! Aparece!
- Tudo bem só com uma condição!
- Eu não negocie-o contigo…
- Se tu atirares o machado para longe eu apareço!
- Sabes que eu nunca faria uma coisa dessas.
O machado era o meu legado. Ele tinha passado de pai para filho ao longo de varias gerações. Foi um presente que o meu antepassado recebera por ter casado com a filha do ferreiro. Era demasiado valioso para o abandonar.
- Ok.
- O quê?
- Fica combinado!
Tiro a corda que tenho á cintura e atiro o machado para longe. De repente aparece o Jeremias. Pequeno homem sem orelha com uma caçadeira de canos serrados na mão que a dispara instantaneamente. Fujo para de trás de um caixote do lixo e por sorte não sou atingido, apenas uns furos no meu casaco preto de cabedal. Um dos dois não pode sair vivo desta vez. Se morrermos os dois melhor. Assim acaba também o meu sofrimento.
- AH ah, afinal quem se esconde agora és tu? Não é Marco?
Conseguia sentir a loucura deste homem só pela voz. Louco e maquiavélico. Saco a minha desert egle.
-Desta vez não vais sair vivo, Jeremias!
- Sabes quais foram as últimas palavras dela? Que eu era bem melhor na cama do que tu!
- Tu não falas assim da Luísa.
As veias do meu pescoço dilatam e os olhos incham. Sinto os nervos á flor da pele. É agora ou nunca. É este o momento da vingança. Cerro os dentes e avanço inconscientemente com a arma na minha frente. Só vejo os clarões da pólvora incendiada e ouso os estrondos que me deixam surdo. Mesmo com a última munição consigo um tiro certeiro na cabeça de Jeremias. Mas sinto me estonteado. Cai-o de joelhos quando reparo que ele também me acertou. Meto a mão ao peito e o sangue escorre pela minha mão. Caio com a face no chão, mesmo por cima da minha poça de sangue. Uns segundos antes de fechar os olhos, vejo ao fundo do beco uma espécie de junção de pessoa mais macaco. Ele pega no machado desaparece trepando os edifícios da cidade. 

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