28 de abril de 2011

Episódio 5

Por dois meses não consegui arranjar trabalho. Todos os dias a bater á porta de desconhecidos á espera que alguém recebesse, com disposição, mais um indiferenciado. Espera de receber um email para mais uma entrevista. Espera que um amigo me arranje um trabalho.
Sentado na cadeira confortável de um café com ponto de internet, vasculho a minha caixa de correio cheia de mensagens e pergunto a mim mesmo se hoje vou arranjar emprego. Peço um café ao empregado. Abro mais uma página.
 No meio de todas as mensagens encontro uma com o nome de “ Episodio 4”, começava com “Daqui quem escreve é o Nuno Miguel”. Abri e percebi que era mais alguma que o Nuno andava a tramar. Que ideia a dele, de acabar com o dinheiro!

No dia a seguir falo com ele encontramo-nos no comboio. O comboio ia cheio á pinha. Uma mistela de etnias, cheiros e sabe-se lá o que mais. Falamos um pouco mas o Nuno não parecia muito interessado na nossa conversa. Dei por mim a falar sozinho, enquanto o Nuno prestava atenção às pessoas á nossa volta.
 
- Olha lá, ‘tou a falar contigo!

- ‘Pera deixa ouvir o que eles estão a dizer. - Fala o Nuno sem sequer olhar para mim.
Estamos perto da estação de Campanhã.
- Não sabia que eras coscuvilheiro também. – Lembro me daquelas vizinhas que passam a vida a falar mal de toda a gente.
 Depois o Nuno sussurra.

- Achas?! Estou só a ver o tópico da conversa e a intensidade.

- E viraste jornalista agora?
De repete as portas abrem-se e as pessoas tentam sair e outras tentam entrar ao mesmo tempo.

- Não. Activista. – Responde o Nuno e de repente vejo ele a dar um encontrão a um dos homens da conversa interessante. Pedindo de seguida desculpa – Desculpe, é a minha paragem!

Saio a correr pois o Nuno não me avisou da paragem que íamos sair. Sentamo-nos num muro baixo de cimento, logo á saída do comboio. Vemos o comboio partir.
Nuno tira uma carteira do bolço do seu casaco sem mangas mas com capucho.
- O quê? Roubaste a carteira do homem? Esta é a última vez que eu falo contigo. – Levanto-me para ir embora. Entretanto o Nuno pega em duas notas de 50 € atira para o chão e despeja algo com cheiro inflamável em cima.

– Não vás embora – grita o Nuno.
Ouso o som de um fósforo a passar a raspa. Volto para ele e vejo um fósforo a cair em cima das notas molhadas em algo inflamável, parecia álcool.

- Ah ah! Não leste a minha mensagem!

- Tu bates mesmo mal! Não sei porque ainda falo contigo.

- Eu apenas acho que se não existisse dinheiro que era mais fácil. Que não havia tantas guerras. – Suspira o Nuno.

-Talvez a guerra e o dinheiro são gémeos falsos que, a pequena diferença de idade não importam agora. O que importa é o que fazer para acabar com ela e quem tem poder não se importa muito com isso.

- Tens razão… E quem é que achas que tem esse poder?

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